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A vida da janela

Gostava bem desses dias azuis e frientos que cutucavam a alma lá no fundo, e forte. Ficava a olhar pela janela da quite os pardais e os pombos que voavam por ali, meio que enfeitando aquele céu vasto e anil e sem nuvens. Embora não gostasse de pombos de jeito nenhum. Sua companheira de sempre desses momentos diários era a gata rajada que afinal não tinha nome nenhum, nem sabia o porquê. Mas que era misteriosa, era. Não sabia se chegava a sentir carinho pelo animal, que enrolava na sua perna como que amando-a e logo depois agia indiferente. Não sabia se chegava a sentir carinho pelo animal porque era como um espelho. Ela se via na gata rajada, ah!, se via. Só não admitia as semelhanças. O olhar indiferente, o jeito meio largado, meio despreocupado, misterioso. E ambas amavam aquele momento do dia: observar a vida da janela.

Desempregada há sete meses, não tinha nenhuma perspectiva. Até queria, até tentava, mas meio que na verdade não queria nada não. A mãe ajudava com o básico e estava bom, tudo bem. Já não tinha mais linha telefônica, e ufa!, ainda bem. Já não queria ser obrigada ao oi tudo bem como vai a vida e aí o que anda fazendo, porque simplesmente não queria dar satisfações a ninguém. Passara a vida fazendo planos que nunca saíram das gavetas da mente e que na verdade nem eram seus. Haviam sido plantados ali por toda a gente que deixara um rastro pelos caminhos de sua vida. E agora que tirara este peso de gente, a mente estava vazia. Mente vazia, oficina do diabo. É o que dizem. Mas pra ela, tava tudo bem. Precisava deixar a cabeça respirar renovação e quietude. A quietude que nunca teve, de forma tão plena que por um momento acreditava que nem existia. Mas existia sim, e a vida afinal era boa.

Vivia só ela e a solidão na quite apertada. E a gata rajada que surgiu num desses dias nublados por aí. Embora nem gostasse tanto assim de gato, logo simpatizou com o bicho e levou-o pra casa. Olhinhos altivos, amarelinhos e rápidos. Sentia que a gata lia sua alma. Quando pensava isso, concluía que talvez estava a perder a sanidade mental. Mas aí lembrava que o mundo todo era louco, que algumas pessoas só sabiam disfarçar melhor a insanidade e que afinal os animais são seres sensitivos, e lêem sim a alma da gente. Tinha sempre na lembrança o cachorrinho que teve quando era criança, o Bidu. O Bidu sabia diferenciar gente boa de gente ruim. Quando o cachorro não simpatizava com um visitante, já era. A menina já cerrava os olhos como que eu-já-sei-sobre-você, não me venha com fingimentos de bondade. Lembrava, em especial, no dia que permitiu que o Bidu atacasse sua tia-avó. Maldade, sim. Merecido, também. Não sabia exatamente o que sentia por aquela mulher que afinal era de sua família, sangue do teu sangue, mas que não lhe descia de jeito nenhum. Era risinhos demais, voz macia demais, amores demais. E tudo que era demais não lhe descia, desde sempre. O Bidu era um cachorrinho que de inho não tinha nada, e sua grandeza não era só no tamanho, mas na bondade que irradiava. Ela acreditava na bondade quando via seu cachorrinho que de inho não tinha nada, pois ele era justo. Talvez tenha sido seu cachorro o ser que mais lhe ensinou na infância sem proferir uma só palavra. Mas a gata.

Aquela gata tinha um quê de mistério, não muito amistosa, mas tão parecida… E isso lhe intrigava, porque sentiu uma atração pelo bichano à primeira vista. Encontrou-a na rua e enquanto lhe encarava e tentava uma aproximação, perguntou aos vizinhos que passavam por ali se sabiam do dono do bicho. Essa gata tá aí, eles disseram. E ninguém sabe de onde veio. Assim como eu, logo pensou. Passara por maus bocados, a moça. E meio que para fugir dos problemas se mudou, só avisando à mãe. Uma boa mulher que sempre a ajudou financeiramente, porque afinal nunca entendia a filha de verdade. Sentia-se tão culpada por achar a filha uma incógnita que se limitava a ajudá-la com tudo que não envolvesse compreendê-la. Porque aí já seria exigir demais de si.

E como quem queria um amigo, a moça pegou a gata rajada. Era um dia ensolarado e até feliz. Feliz exatamente por ser ensolarado. Gostava de observar as crianças brincando pela janela e colava o rosto às barras da mesma sentindo o frio encostando no rosto e então respirava fundo e os raios do sol batiam forte, e era bom. Gostava.

E como quem estava de bom humor, fez uma bolinha de lã para agradar a gata rajada, que se animou, de início. E logo foi se desinteressando daquela brincadeira, da dona, e foi pro seu canto, indiferente. Semelhante. Entendível.

E então, desde o dia que pegara a gata rajada, seus dias se baseavam na observação da amiga silenciosa que às vezes quebrava a quietude do recinto, derrubando algo. Afinal, a mulher se instalara ali havia meses, mas nunca terminou de arrumar as tralhas que trouxera.

Certo dia a gata esteve animada. Corria por todo lado, mesmo não tendo tanto espaço para correr. Saltava, subia na poltrona e se enroscava no tapete. E lá no canto havia uma pilha de livros que um dia foram bem cuidados, guardados e lidos, mas que agora estavam empoeirados e largados. E nessas estripulias a gata subiu na pilha que já estava meio inclinada meio caindo e só se ouviu o barulho de todos sendo derrubados, enfim. A mulher, que afinal não fazia nada a não ser pensar e pensar, ficou até feliz de ter que fazer algo, catar todos os livros. Muitos caíram abertos, e então ela passava os olhos sobre aquelas letrinhas com cuidado, chegava a repetir palavras em voz alta, porque já tinha se esquecido como era saborear a leitura de uma palavra simples. Pegou um livro aberto, caído, que estava mais próximo, folheando devagar. De poesia, Cecília Meireles. Há quanto tempo não lia poesia? Lembra que gostava, mas agora mesmo já não saberia recitar nenhuma. O que foi feito de mim nesse tempo todo?, se questionava. Resolveu fazer um tipo de brincadeira muito comum na sua infância e adolescência. Consistia em fechar o livro, fechar os olhos e abrir numa página aleatória. Riu de sua bobice, mas fez mesmo assim, ali sentada no chão, a gata rajada a lhe observar atentamente. Abriu o livro. Leu então a poesia uma vez. Duas. E mais três.

 

“A vida só é possível

reinventada.

 

Anda o sol pelas campinas

e passeia a mão dourada

pelas águas, pelas folhas…

Ah! tudo bolhas

que vem de fundas piscinas

de ilusionismo… – mais nada.

 

Mas a vida, a vida, a vida,

a vida só é possível

reinventada.

 

Vem a lua, vem, retira

as algemas dos meus braços.

Projeto-me por espaços

cheios da tua Figura.

Tudo mentira! Mentira

da lua, na noite escura.

 

Não te encontro, não te alcanço…

Só – no tempo equilibrada,

desprendo-me do balanço

que além do tempo me leva.

Só – na treva,

fico: recebida e dada.

 

Porque a vida, a vida, a vida,

a vida só é possível

reinventada.”

A vida só é possível reinventada. Reinventada. Reinvenção. E como uma criança que acaba de aprender as letras, ficou a repetir essas palavras, sentindo o gosto que era pronunciá-las, assim, sem ligar para a bobice da situação. E ficou a recitar o poema, que lhe tocava no mais profundo de sua alma, arejando aquela alminha já enferrujada e que se acostumara a ignorar as coisas da sensibilidade. Já tinha tanto tempo que não sentia essa sensação de ser tocada pelas palavras. Porque a vida só é possível reinventada. A vida. A vida. Só é possível reinventada. A vida, a vida, a vida.

Às vezes chorava baixinho, esquecida que estava sozinha e podia se rasgar totalmente e vomitar toda mágoa guardada do passado. Às vezes também sorria e dançava sozinha se olhando no grande espelho que ficava encostado na parede. Às vezes pensava até cansar o corpo que na verdade não fizera nenhum movimento. E de tanto cansaço mental que acabava afetando o físico ficava ali a focar em sua respiração. Nessas horas é que a gata rajada parecia ser compreensível e amorosa, deitava na barriga da moça, olhava-a diretamente nos olhos, com um olhar repleto de candura e não mais de desconfiança e indiferença, sem o olhar vociferante e sem ler as ruindades de sua alma. O movimento contínuo do abdômen subia e descia. Subia e descia… E então as duas dormiam um sono longo e tranquilo.

Depois desse dia, muitos outros passaram. E ela não saía daquele cubículo. Nada a impedia, mas sentia que não era hora. Ficava só, com a gata rajada, que também parecia não se incomodar de ficar presa ali. E todas as tardes as duas se dirigiam à janela, a observar as pessoas que passavam na rua, as mães que iam buscar os filhos na escola, as crianças que saíam para passear com seus cachorros, a vida de todos que era visível dali e que continuava. Indiferentes. Ambas. Os dias iam passando, passando, se arrastavam vagarosamente…

5 da manhã, ainda escuridão. Vai quase que se rastejando ao banheiro, bocejando enquanto coça devagar a cabeça, como que pra afagar e afastar as memórias ainda meio vivas que insistem em aparecer nos seus sonhos, embaralhadas. Só ouve seus passos. Estranha. Costuma ouvir o ronronar incessante da gata rajada, mas não ouviu nada além dos seus passos secos. Coça os olhos para então observar a presença da gata rajada. Nada. Estranha. Não sabia direito o que sentia pelo bicho, mas agora que não a vê sente uma pontada de desespero e procura, procura, procura. E nada. Olha então pra porta. Aberta. Uma fresta. A gata rajada foi-se embora.

Ficou ali sentada na poltrona velha e rasgada, ainda baqueada sem acreditar que agora era só ela e a solidão. Ficou ali sentada na poltrona velha e rasgada que já cheirava a mofo e a poeira, vendo o dia clarear, absorta nos seus pensamentos emaranhados. A gata rajada foi-se embora. Levantou e foi preparar um café. Só tinha um restinho de pó. A gata rajada fugiu… Fez então um cafezinho fraco e sem graça. A gata. Tomou dois goles. Fugiu. O dia amanheceu. A gata rajada foi-se embora. Respirou fundo. Se lembrou dos versinhos da Meireles.

Decidiu que naquele dia sairia de casa. Comprar café. Procurar um emprego. Teve tempo suficiente com seus pensamentos. Já era tempo de viver. Iria viver. “A vida só é possível reinventada”, murmurou baixinho, para si, como que se falasse, as palavras tomariam forma e se concretizariam, enfim.

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Cícero – Camomila

“Nada vai mudar em vão

nada vai e ponto.
Todo desconforto, toda solidão.

– Nada vai mudar o são.
– disse o velho louco pro menino bobo cheio de ilusão
– nada vai mudar em vão; no tumulto todo um pequeno
[ponto na imensidão.

Só um pouco de paz pra levar, pro dia passar bem.”

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Canção – Por Cecília Meireles

“Assim moro em meu sonho:
como um peixe no mar.
O que sou é o que vejo.
Vejo e sou meu olhar.

Água é o meu próprio corpo,
simplesmente mais denso.
E meu corpo é minha alma,
e o que sinto é o que penso.

Assim vou no meu sonho.
Se outra fui, se perdeu.
É o mundo que me envolve?
Ou sou contorno seu?

Não é noite nem dia,
não é morte nem vida:
é viagem noutro mapa,
sem volta nem partida.

Ó céu da liberdade,
por onde o coração
já nem sofre, sabendo
que bateu sempre em vão.”

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A triste geração que virou escrava da própria carreira – Por Ruth Manus

Era uma vez uma geração que se achava muito livre.

Tinha pena dos avós, que casaram cedo e nunca viajaram para a Europa.

Tinha pena dos pais, que tiveram que camelar em empreguinhos ingratos e suar muitas camisas para pagar o aluguel, a escola e as viagens em família para pousadas no interior.

Tinha pena de todos os que não falavam inglês fluentemente.

Era uma vez uma geração que crescia quase bilíngue. Depois vinham noções de francês, italiano, espanhol, alemão, mandarim.

Frequentou as melhores escolas.

Entrou nas melhores faculdades.

Passou no processo seletivo dos melhores estágios.

Foram efetivados. Ficaram orgulhosos, com razão.

E veio pós, especialização, mestrado, MBA. Os diplomas foram subindo pelas paredes.

Era uma vez uma geração que aos 20 ganhava o que não precisava. Aos 25 ganhava o que os pais ganharam aos 45. Aos 30 ganhava o que os pais ganharam na vida toda. Aos 35 ganhava o que os pais nunca sonharam ganhar.

Ninguém podia os deter. A experiência crescia diariamente, a carreira era meteórica, a conta bancária estava cada dia mais bonita.

O problema era que o auge estava cada vez mais longe. A meta estava cada vez mais distante. Algo como o burro que persegue a cenoura ou o cão que corre atrás do próprio rabo.

O problema era uma nebulosa na qual já não se podia distinguir o que era meta, o que era sonho, o que era gana, o que era ambição, o que era ganância, o que necessário e o que era vício.

O dinheiro que estava na conta dava para muitas viagens. Dava para visitar aquele amigo querido que estava em Barcelona. Dava para realizar o sonho de conhecer a Tailândia. Dava para voar bem alto.

Mas, sabe como é, né? Prioridades. Acabavam sempre ficando ao invés de sempre ir.

Essa geração tentava se convencer de que podia comprar saúde em caixinhas. Chegava a acreditar que uma hora de corrida podia mesmo compensar todo o dano que fazia diariamente ao próprio corpo.

Aos 20: ibuprofeno. Aos 25: omeprazol. Aos 30: rivotril. Aos 35: stent.

Uma estranha geração que tomava café para ficar acordada e comprimidos para dormir.

Oscilavam entre o sim e o não. Você dá conta? Sim. Cumpre o prazo? Sim. Chega mais cedo? Sim. Sai mais tarde? Sim. Quer se destacar na equipe? Sim.

Mas para a vida, costumava ser não:

Aos 20 eles não conseguiram estudar para as provas da faculdade porque o estágio demandava muito.

Aos 25 eles não foram morar fora porque havia uma perspectiva muito boa de promoção na empresa.

Aos 30 eles não foram no aniversário de um velho amigo porque ficaram até as 2 da manhã no escritório.

Aos 35 eles não viram o filho andar pela primeira vez. Quando chegavam, ele já tinha dormido, quando saíam ele não tinha acordado.

Às vezes, choravam no carro e, descuidadamente começavam a se perguntar se a vida dos pais e dos avós tinha sido mesmo tão ruim como parecia.

Por um instante, chegavam a pensar que talvez uma casinha pequena, um carro popular dividido entre o casal e férias em um hotel fazenda pudessem fazer algum sentido.

Mas não dava mais tempo. Já eram escravos do câmbio automático, do vinho francês, dos resorts, das imagens, das expectativas da empresa, dos olhares curiosos dos “amigos”.

Era uma vez uma geração que se achava muito livre. Afinal tinha conhecimento, tinha poder, tinha os melhores cargos, tinha dinheiro.

Só não tinha controle do próprio tempo.

Só não via que os dias estavam passando.

Só não percebia que a juventude estava escoando entre os dedos e que os bônus do final do ano não comprariam os anos de volta.